Existem hoje no Brasil diversas quadrilhas especializadas em roubar equipamentos de infra-estrutura de redes de telecomunicações. De cabos telefônicos a baterias de estações radiobase, passando por equipamentos de manutenção de fibra óptica e painéis solares, esses piratas sabem exatamente que equipamentos têm valor no mar de redes de telefonia instaladas pelo País. Os prejuízos para as operadoras são incalculáveis, pois vão além do custo puro e simples do material roubado. Há uma enxurrada de ligações para os call centers, deslocamento de equipes técnicas, vários telefonemas deixam de ser feitos e ainda ocorre o desgaste da imagem da companhia frente ao consumidor, que muitas vezes não sabe qual é a verdadeira causa para o serviço estar fora do ar.

O alvo principal dos ladrões são os cabos telefônicos. Só em 2007 foram furtados aproximadamente 7,4 mil km de fios telefônicos das redes das três concessionárias locais, o que daria para ligar Brasília a Lisboa. Somente a Oi registrou no ano passado em torno de 15 mil furtos de cabos telefônicos, que afetaram 5 milhões de linhas fixas. O call center da operadora recebeu quase 500 mil reclamações relacionadas a furtos de fios em 2007. São dados impressionantes, revelados pelo diretor de patrimônio da Oi, Paulo Edson Pioner, e que possibilitam ter uma dimensão do quão grave é o problema.

Os cabos telefônicos são feitos de cobre e a razão para os furtos é o valor desse metal. Entre 2003 e 2008, o preço da tonelada de cobre subiu de US$ 1,5 mil para US$ 8,8 mil, na London Metal Exchange. Os motivos para a elevação do preço foram o aumento da demanda por cobre e também uma maior especulação de grandes investidores internacionais na compra e venda de commodities, explica Sergio Aredes, presidente do Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não-Ferrosos do Estado de São Paulo (Sindicel).

As quadrilhas não se limitam a roubar cobre das redes de telecomunicações. Fios elétricos, igualmente feitos de cobre, também são alvos dos bandidos. O fio elétrico é mais grosso e contém mais cobre. Porém, seu furto acontece em proporção menor que o de cabos telefônicos, pois requer certo conhecimento técnico para que o ladrão não seja eletrocutado. Além disso, as próprias indústrias que usam o cobre como matéria-prima sofrem com constantes assaltos a suas unidades de produção e a seus caminhões. Em 2007 foram roubadas 840 toneladas de cobre e de produtos de cobre no Brasil, entre assaltos a fábricas e roubos de carga. Aredes, do Sindicel, calcula que o prejuízo anual da indústria de cobre com esses roubos gire entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.

A maioria dos ladrões de cabos telefônicos é constituída de pessoas pobres e desempregadas. Elas costumam realizar os furtos de madrugada, em áreas descampadas, onde há pouco policiamento. No Estado do Rio de Janeiro, áreas carentes na Baixada Fluminense e Niterói estão entre as preferidas dos bandidos. Em São Paulo, de acordo com nota enviada pela Telefônica, as regiões mais afetadas são Jundiaí, Campinas, Alto do Tietê e Sorocaba. Para alcançar os fios, eles levam ou improvisam escadas. Às vezes sobem em árvores. Se for uma dupla, sobe um no ombro do outro, descreve o delegado Marcio Franco, da Delegacia de Roubos e Furtos do Rio de Janeiro, Estado onde se concentram 70% dos furtos registrados na rede da Oi.

Depois de furtados os cabos, os próprios ladrões que sobem nos postes se encarregam de queimar o material, para destruir a capa que envolve o cobre e onde geralmente está gravada a marca da operadora de telefonia. O cabo queimado, porém, faz com que o cobre perca bastante de sua qualidade, o que reduz seu valor. Uma vez juntada uma quantidade significativa de material roubado, o metal é vendido pelo bandido a algum ferro-velho pequeno, geralmente perto da região onde mora. Esse ferro-velho, por sua vez, revende o material para outro ferro-velho de maior porte e assim sucessivamente, até o cobre chegar a uma usina que irá processá-lo e torná-lo reutilizável para a fabricação de novos produtos de cobre.

Legalização do metal

Para dar um aspecto de legalidade ao material, alguns sucateiros fazem uso de uma artimanha simples. Eles vão a leilões de sucata e compram, legalmente, algumas toneladas de cobre velho. Nessa compra recebem uma nota fiscal verdadeira, que atesta a origem daquele material. Porém, na hora de revender o metal, o ferro-velho apresenta a mesma nota fiscal mais de uma vez, para usinas diferentes. Assim, consegue escoar tanto o material comprado legalmente quanto aquele originado de furtos. Às vezes os sucateiros pagam mais caro que o normal pelo quilo de cobre nesses leilões oficiais só para conseguirem uma nota fiscal verdadeira, relata uma fonte que preferiu não se identificar. A única prova de origem do material é a nota fiscal.

As operadoras fornecem à Polícia todas as informações possíveis sobre os furtos, de forma a auxiliar as investigações. Nos primeiros quatro meses deste ano, 200 ladrões de cabos telefônicos foram presos pela Polícia só no Estado do Rio de Janeiro. A grande maioria, porém, é solta e responde em liberdade, já que o furto é um crime sem violência contra o patrimônio. O importante, na opinião de fontes das operadoras, é prender os receptadores do material roubado.

Em 2006, a Polícia fluminense comandou uma operação batizada de fim de linha, na qual 40 receptadores foram presos. Todos os indiciados estão respondendo em liberdade. A pena para o receptador deveria ser maior. Ela é de apenas dois anos, reclama Pioner, da Oi. Ele lembra que muitas vezes o corte de um cabo telefônico prejudica a comunicação de serviços de utilidade pública, como hospitais e bombeiros. Na época da operação. Fim de Linha, o índice de furtos no Rio caiu bastante, mas depois voltou a subir. Só este ano, a Polícia fluminense apreendeu cinco caminhões que transportavam, ao todo, 100 toneladas de fios de cobre furtados. Dois deles iam para São Paulo e três, para Minas Gerais.

Paralelamente ao trabalho da Polícia, as operadoras tomam suas próprias medidas de prevenção e combate ao furto de cabos. A Brasil Telecom (BrT) é talvez a operadora que tenha obtido maior sucesso até agora no combate ao problema. De 2004 a 2007, a quantidade de km de fios de cobre furtados em sua região caiu 50%, baixando de 1.055 km para 482 km, graças a uma série de iniciativas da empresa. A receita da operadora foi a seguinte: 1) manter comunicação constante com os órgãos de segurança pública; 2) contratação de uma consultoria em gestão de riscos para mapear o problema e manter os executivos informados; 3) operar alarmes em toda a rede; 4) manter controle rígido da própria sucata, evitando a realização de leilões de sucata de cobre.

A Oi também tem alarmes espalhados por sua rede e, em sites remotos ou considerados estratégicos, há câmeras de vídeo. Em locais onde o furto é recorrente, outra solução é passar o cabo pelo subsolo. O problema é o alto custo dessa solução. Na maioria das vezes, enterrar os cabos não é uma medida economicamente viável. Este procedimento só é indicado para casos críticos com um número grande de reincidências ou em regiões muito isoladas, explica uma fonte da área de segurança da BrT.

E não se deve esquecer que a própria população pode ajudar no combate a esse crime. Tanto Oi quanto BrT disponibilizam um número 0800 para que os cidadãos façam denúncias anônimas de ladrões de cabo. Já houve casos em que moradores de uma determinada região no Rio de Janeiro prenderam por conta própria o cortador de cabos, amarraram-no contra o poste e chamaram a Polícia.

Outros furtos

Não são apenas cabos telefônicos que despertam o interesse de ladrões. Baterias usadas para fornecer energia a ERBs também costumam ser furtadas porque são iguais às baterias de carros. Para reduzir o problema, os fabricantes passaram a fornecer baterias com os pólos invertidos, mas mesmo assim ainda acontecem alguns furtos. Há também furtos de painéis solares em sites remotos, informa a BrT.

A AES Com, operadora que administra o antigo backbone da Light Telecom no Rio de Janeiro e é especializada em vender capacidade para outras teles, enfrenta furtos e roubos de outra ordem. Sua rede é composta principalmente de cabos de fibra óptica, material que não tem valor comercial para os ladrões. Alguns anos atrás, a empresa teve problemas com roubos de caixas de emenda para cabos de fibra óptica. Trata-se de uma caixa de plástico usada quando se precisa unir os cabos ópticos em uma derivação da rede. Essas caixas eram roubadas provavelmente para serem usadas por empresas que prestam serviços a outras teles.

Para levar a caixa, o ladrão cortava a fibra óptica. Até instalar cada caixa de novo e emendar as fibras leva tempo, relata o diretor de rede da AES Com, Augusto Marsillac. As caixas eram todas de cor preta e a maioria era fabricada por um único fornecedor. A solução encontrada pela AES Com foi marcar suas caixas com uma tinta azul. Um tempo depois, a empresa convenceu o fornecedor a fabricar, com exclusividade para a AES Com, caixas de emenda na cor azul. Com isso os furtos acabaram. E depois outras operadoras adotaram a mesma solução e passaram a ter cores exclusivas para suas caixas, conta Marsillac. A GVT adotou uma medida parecida: implantou uma caracterização específica em equipamentos instalados em locais onde os furtos são mais freqüentes, de forma a tornar possível a identificação deles caso a carga seja interceptada pela Polícia.

Outro grave problema enfrentado pela AES Com são os roubos de equipamentos de manutenção de rede. Nesses casos, o corte da fibra óptica serve como isca para atrair uma equipe de manutenção da operadora. Quando os técnicos chegam ao local, são assaltados à mão armada. Os bandidos sabem exatamente o que querem levar: a máquina de emenda óptica por fusão, que custa em torno de R$ 30 mil, e o OTDR, instrumento que verifica problemas na rede de fibras ópticas e que custa cerca de R$ 20 mil. São assaltos por encomenda, com certeza, acredita Marsillac, da AES Com. É provável que tais equipamentos vão para as mãos de pequenas empresas que prestam serviços para operadoras em outras cidades ou Estados.

A AES Com já perdeu quatro máquinas de emenda, mas todas estavam seguradas. O problema é que os constantes roubos tornaram o seguro desse equipamento muito caro. Para contornar o problema, a operadora tem usado desde 2005 conectores para emenda mecânica, que são mais baratos. Só levamos a máquina de emenda por fusão quando o conserto acontece durante o dia e em um local de grande movimento, explica Marsillac. Muitas vezes, se o problema técnico acontece em uma área de risco e à noite, a empresa negocia com o cliente a possibilidade de esperar o dia clarear para fazer o conserto. A AES Com costuma contar com a compreensão de seus clientes, até por que são todas operadoras de telefonia e entendem o problema. Quem sofre mais são as teles que atendem corporações de outros setores da economia e com as quais assinam rigorosos acordos de SLA (Service Level Agreement).

O pior é concluir, no caso de assaltos como os ocorridos com a AES Com, que os mandantes do crime devem ser empresas do próprio setor de telecomunicações. O grande foco da Polícia, na opinião das fontes entrevistadas, deveria ser a captura desses receptadores. E talvez falte também um pouco mais de diálogo entre as operadoras para trocar experiências e tentarem, juntas, combater os piratas que saqueiam diariamente as redes de telecomunicações do País.

Fonte: Teletime (www.teletime.com.br)

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